
A pouco mais de quatro meses para o fim do ano, grandes empresas e bancos do Ibovespa projetam um cenário de maior cautela para a economia brasileira em 2027. Levantamento da Folha de S.Paulo com 76 companhias que integram o índice mostra expectativas de crescimento econômico mais lento e impactos maiores dos juros elevados sobre os negócios.
Os dados foram obtidos a partir das teleconferências de resultados do segundo trimestre deste ano. Entre os principais pontos de atenção citados pelos executivos estão o elevado endividamento das famílias, a inadimplência, a pressão sobre o consumo e a perspectiva de manutenção da Selic em patamar elevado.
O aumento das dívidas já afeta até o pagamento de serviços básicos. Empresas como CPFL Energia e Copasa relataram aumento da inadimplência e intensificação das medidas de cobrança.
Na CPFL Energia, o índice de inadimplência passou de 0,82%, no segundo trimestre de 2025, para 1,08% no mesmo período deste ano. Segundo o CEO da companhia, Gustavo Estrela, os atrasos refletem a dificuldade das famílias em manter as contas em dia. A empresa utiliza, entre outras medidas, cortes no fornecimento para controlar a inadimplência.
A Copasa também apontou o endividamento das famílias como um desafio e informou que tem adotado mecanismos antecipados de cobrança e ampliado as alternativas de negociação. A companhia também pretende intensificar ações de cobrança, incluindo cortes em casos de inadimplência. Para Marcelo Kfoury, professor de economia do Insper, o elevado endividamento pode comprometer o orçamento das famílias mesmo em um cenário de baixo desemprego. Segundo ele, consumidores endividados precisam escolher quais despesas conseguem pagar, o que pode afetar contas básicas como água e energia.
No varejo, empresas como Lojas Renner e Assaí Atacadista demonstraram preocupação com os efeitos de uma Selic mais alta do que a esperada sobre o consumo.
Alfredo Setubal, CEO da Itaúsa, chegou a classificar o cenário como de “pequena recessão”. Segundo o executivo, a economia vem desacelerando apesar das medidas adotadas pelo governo para estimular o consumo e facilitar a renegociação de dívidas.
A Itaúsa reúne empresas de diferentes setores, como Itaú Unibanco, Alpargatas, Motiva e Aegea. Setubal afirmou que o elevado endividamento das famílias deve resultar em menor consumo e que as empresas investidas estão sendo orientadas a trabalhar com orçamentos mais moderados.
O setor bancário também demonstra cautela. Executivos do BTG Pactual e do Santander apontaram um ambiente mais complexo em 2027, com a inadimplência do crédito entre os principais riscos.
Segundo Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, o endividamento elevado de governos e famílias, combinado aos juros altos, deve produzir efeitos sobre a atividade econômica.
As projeções mais recentes do Boletim Focus indicam que a Selic deve terminar 2027 em 12% ao ano, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 1,5%. (FP)